Quando falamos de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) e autismo, estamos tratando de um tema central no desenvolvimento infantil, o direito à comunicação, independentemente da presença ou não da fala oralizada. Muitas famílias convivem com dúvidas e inseguranças, como: “Será que o sistema que usa figuras vai impedir meu filho de falar?” ou “E se ele nunca desenvolver a fala oralizada?”.
Essas perguntas são legítimas. E a ciência oferece respostas claras, éticas e baseadas em evidências.
A CAA não atrasa a fala oralizada em pessoas autistas. Pelo contrário, quando indicada de forma individualizada e acompanhada por profissionais qualificados, a CAA favorece a comunicação funcional e pode, em muitos casos, apoiar o desenvolvimento da fala oral.
O que é Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA)?
A Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) é um conjunto de recursos, estratégias e sistemas que complementam ou substituem a fala quando ela ainda não é funcional.
O objetivo da CAA é sempre o mesmo, promover que a pessoa consiga se comunicar de forma eficaz.
A CAA pode incluir:
- Recursos de alta tecnologia, como aplicativos de comunicação em tablets e dispositivos com saída de voz;
- Recursos de baixa tecnologia, como pranchas de comunicação, quadros visuais, livros e sistemas de troca de figuras.
Mais do que permitir pedidos básicos, a CAA possibilita que a pessoa:
- Faça comentários;
- Compartilhe sentimentos;
- Faça perguntas;
- Proteste;
- Conte experiências;
- Inicie e mantenha interações sociais.
Ou seja, a pessoa passa a exercer comunicação funcional, com impacto direto na autonomia, na independência e na qualidade de vida.
CAA e autismo: usar CAA atrasa a fala oral?
Não. As evidências científicas são consistentes ao demonstrar que a CAA não inibe nem atrasa o desenvolvimento da linguagem oral. Revisões sistemáticas e estudos amplamente citados mostram que o uso da Comunicação Aumentativa e Alternativa:
- Não impede o desenvolvimento da fala oral;
- Pode estimular o surgimento da fala oral em muitos indivíduos;
- Reduz frustração e comportamentos interferentes, criando um ambiente mais favorável ao aprendizado e à interação.
Isso ocorre porque a CAA:
- Organiza o pensamento;
- Dá previsibilidade à comunicação;
- Ensina que comunicar gera efeitos reais no ambiente.
É fundamental reforçar: comunicar não é apenas falar. Uma pessoa que aponta uma figura para pedir água está se comunicando e isso deve ser reconhecido, valorizado e ampliado.
O que a ciência diz sobre CAA e autismo?
Pesquisas indicam que uma parcela significativa das pessoas autistas é não oralizada especialmente nos primeiros anos de vida. A ausência de comunicação funcional está associada a:
- Frustração intensa;
- Aumento de comportamentos interferentes;
- Prejuízos na interação social e no aprendizado.
Estudos demonstram que a promoção da comunicação funcional por meio da CAA está relacionada a:
- Redução de comportamentos com função comunicativa inadequada;
- Aumento da participação social;
- Melhora a qualidade de vida do indivíduo e da família.
No contexto do CAA e autismo, a comunicação não substitui o desenvolvimento — ela abre caminho para ele.
Quando indicar o uso da CAA no autismo?
Quanto antes, melhor. A ideia de “esperar até os 5 anos para ver se a fala vem” é ultrapassada e pode atrasar significativamente o desenvolvimento. A CAA pode ser introduzida precocemente, desde que:
- Seja baseada em avaliação individualizada;
- Considere habilidades cognitivas, motoras e sensoriais;
- Leve em conta os interesses e o perfil da pessoa avaliada e o contexto familiar.
Cada pessoa é única. A escolha do recurso deve ser feita por profissionais qualificados, liderada por fonoaudiólogos, dentro de um trabalho interdisciplinar.
A importância da família, da escola e do ambiente
A comunicação precisa estar disponível em todos os contextos, não apenas durante a terapia.
Para que a CAA seja eficaz, é fundamental:
- Envolver pais e cuidadores;
- Orientar professores e equipe escolar;
- Garantir consistência no uso no dia a dia.
A CAA é um compromisso coletivo. Quanto mais parceiros de comunicação a pessoa tiver, maiores são as oportunidades de desenvolvimento. Hoje, inclusive, escolas e espaços públicos já utilizam painéis visuais de comunicação, promovendo acessibilidade e inclusão.
Recursos gratuitos de CAA
Existem plataformas que disponibilizam materiais gratuitos de Comunicação Aumentativa e Alternativa, como:
Esses recursos devem ser utilizados com orientação profissional, garantindo adaptação às necessidades individuais.
CAA e autismo não é só sobre linguagem — é sobre inclusão
Trabalhar com CAA e autismo é, acima de tudo, trabalhar com direitos humanos.
É permitir que uma pessoa possa dizer:
- “Não quero”
- “Estou com medo”
- “Quero brincar”
- “Preciso de ajuda”
É dar voz a quem, por muito tempo, foi silenciado pela ausência de meios adequados de comunicação.
Se você é familiar, educador ou profissional da saúde e convive com uma pessoa autista com necessidades complexas de comunicação, considere a CAA como parte essencial do processo terapêutico. Com apoio qualificado, envolvimento da rede e uso consistente, os resultados podem ser profundamente transformadores.
Comunicar é um direito.
Toda pessoa tem algo a dizer, só precisamos oferecer os meios certos.
Fontes:
Millar, D. C.; Light, J. C.; Schlosser, R. W. (2006) — https://pubs.asha.org/doi/10.1044/1092-4388(2006/021)
Schlosser, R. W.; Wendt, O. (2008) — https://pubs.asha.org/doi/10.1044/1058-0360(2008/021)
Ganz, J. B., et al. (2012) — https://link.springer.com/article/10.1007/s10803-011-1212-2
Bersch, R.; Schirmer, C. (2005) —http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/ensaiospedagogicos.pdf



